quinta-feira, 26 de junho de 2008

EXEMPLOS DE CRÔNICA

O ponto de ruptura

Luis Fernando Verissimo

Não me lembro de título, diretor, nada. Era um filme italiano com o Mastroianni. Faz anos. O Mastroianni tinha uma obsessão: vivia enchendo balões até que rebentassem. Precisava descobrir o ponto exato que antecedia a ruptura dos balões, o exato ponto em que um sopro, um hálito a mais faria o balão estourar na sua cara. E é claro que só descobria até onde podia soprar depois que o balão estourava na sua cara. O ponto exato era o que antecedia o estouro, só podia ser descoberto quando não adiantava mais nada. Você só sabe até onde pode ir quando já foi.

Também não me lembro que uso simbólico fazem, no filme, dessa atormentada obsessão do personagem, nem como ela se encaixava na trama. Devia ter algo a ver com nossa relação com o tempo e o autoconhecimento. Afinal, nossa biografia só faria sentido para nós depois de nossa morte, literalmente depois do último hálito, quando nada mais faz sentido para ninguém. A trama certamente não terminava bem. Desconfio que o Mastroianni morria no fim, não de filosofia de mais mas assassinado por alguém aos gritos de “Pare com esses malditos balões!”. Não sei.

Às vezes acho que o Congresso brasileiro está atrás do mesmo ponto de ruptura, do mesmo limite de até onde pode ir. O que você e eu chamamos de desfaçatez seria, na verdade, uma busca ontológica de últimas verdades, sobre eles mesmos e sobre a capacidade do saco nacional. Mas só vão descobrir que foram longe demais quando for tarde demais. Não há perigo aparente de ruptura institucional como antigamente. Mas pior que um estouro na cara deve ser a lenta degradação até a desmoralização terminal do legislativo – ou seja, da democracia – entre nós. Vá lá que seja apenas uma especulação filosófica ou um teste de resistência de materiais. Devem encerrá-la imediatamente. O ponto máximo está próximo. Já encheram o bastante.



Os Moralistas
Luis Fernando Verissimo

— Você pensou bem no que vai fazer, Paulo?
— Pensei. Já estou decidido. Agora não volto atrás.
— Olhe lá, hein, rapaz...
Paulo está ao mesmo tempo comovido e surpreso com os três amigos. Assim que souberam do seu divórcio iminente, correram para visitá-lo no hotel. A solidariedade lhe faz bem. Mas não entende aquela insistência deles em dissuadi-lo. Afinal, todos sabiam que ele não se acertava com a mulher.
— Pense um pouco mais, Paulo. Reflita. Essas decisões súbitas...
— Mas que súbitas? Estamos praticamente separados há um ano!
— Dê outra chance ao seu casamento, Paulo.
— A Margarida é uma ótima mulher.
— Espera um pouquinho. Você mesmo deixou de freqüentar nossa casa por causa da Margarida. Depois que ela chamou vocês de bêbados e expulsou todo mundo.
— E fez muito bem. Nós estávamos bêbados e tínhamos que ser expulsos.
— Outra coisa, Paulo. O divórcio. Sei lá.
— Eu não entendo mais nada. Você sempre defendeu o divórcio!
— É. Mas quando acontece com um amigo...
— Olha, Paulo. Eu não sou moralista. Mas acho a família uma coisa importantíssima. Acho que a família merece qualquer sacrifício.
— Pense nas crianças, Paulo. No trauma.
— Mas nós não temos filhos!
— Nos filhos dos outros, então. No mau exemplo.
— Mas isto é um absurdo! Vocês estão falando como se fosse o fim do mundo. Hoje, o divórcio é uma coisa comum. Não vai mudar nada.
— Como, não muda nada?
— Muda tudo!
— Você não sabe o que está dizendo, Paulo! Muda tudo.
— Muda o quê?
— Bom, pra começar, você não vai poder mais freqüentar as nossas casas.
— As mulheres não vão tolerar.
— Você se transformará num pária social, Paulo.
— O quê?!
— Fora de brincadeira. Um reprobo.
— Puxa. Eu nunca pensei que vocês...
— Pense bem, Paulo. Dê tempo ao tempo.
— Deixe pra decidir depois. Passado o verão.
— Reflita, Paulo. É uma decisão seriíssima. Deixe para mais tarde.
— Está bem. Se vocês insistem...
Na saída, os três amigos conversam:
— Será que ele se convenceu?
— Acho que sim. Pelo menos vai adiar.
— E no solteiros contra casados da praia, este ano, ainda teremos ele no gol.
— Também, a idéia dele. Largar o gol dos casados logo agora. Em cima da hora. Quando não dava mais para arranjar substituto.
— Os casados nunca terão um goleiro como ele.
— Se insistirmos bastante, ele desiste definitivamente do divórcio.
— Vai agüentar a Margarida pelo resto da vida.
— Pelo time dos casados, qualquer sacrifício serve.
— Me diz uma coisa. Como divorciado, ele podia jogar no time dos solteiros?
— Podia.
— Impensável.
— É.
— Outra coisa.
— O quê?
— Não é reprobo. É réprobo. Acento no "e".
— Mas funcionou, não funcionou?
O Diabo no espaço

Não foi um sonho, muito menos uma visão. Mas consta que um astronauta, numa dessas naves tripuladas que passeiam pelo espaço, enquanto seus colegas, obedecendo aos horários da base de Houston, dormiam em complicados leitos, montava guarda na cabine de comando e viu o Diabo, em passeio, sem ajuda de qualquer equipamento, apenas com seus chifres, rabo e pés fendidos, caminhando pelo cosmos, aparentemente procurando alguma coisa.

Sabendo que o Pai das Trevas, desde o início do mundo domina uma boa tecnologia, o astronauta tentou comunicar-se com ele. Para sua surpresa, o Diabo entrou na faixa sonora da cabine e os dois conversaram. O diálogo está nos arquivos secretos da Nasa, esperando hora propícia para divulgação.

Após considerações gerais sobre os destinos da humanidade, o astronauta quis saber do destino do próprio Diabo, o que fazia ele ali sozinho, aparentemente perdido no espaço, desorientado e deprimido. Apesar de ser considerado o inventor da Mentira, o Diabo falou a verdade. Estava deixando o planeta Terra onde, desde a revolta dos anjos, antes da criação do Mundo, decidira implantar o Mal e a Desgraça na obra de Deus.

O astronauta quis saber a razão de tão humilhante retirada. Seria uma derrota diante das forças do Bem? Nada disso - informou o Diabo. Ele ia embora da Terra porque sua atividade tornara-se supérflua com o advento da Internet. Procurava agora um planeta em estágio tecnológico menos adiantado do que o nosso, sem um tipo de comunicação onde qualquer um pode fazer um estrago bem maior do que ele na comunidade internacional e na vida de cada um.

Carlos Heitor Cony é romancista e cronista, é também colunista da Folha.
Escreve para a Folha Online às terças – www.folhaonline.com.br

2 comentários:

joelsonjrg disse...

Agente pede um exemplo e me manda um enorma texto! :S

victor teleu disse...

eu quero exemplos merda,não um texto grande